Meu quintal já não me cabe

Cabelos em labaredas circulares e um pouco de estrelas em seu rosto. Sua mão empalmada no vidro da casa, enquanto lá fora desmoronava seu mundo. A vidraça larga de madeira envernizada lhe servia de apoio, suas pernas já não sustentavam o mesmo frágil corpo.

Era um sentimento diferente, não era alegria e muito menos tristeza, parecia que esses dois haviam se tornado amigos e caminhavam de mãos dadas.

Um barulho fino e constante chamou sua atenção e seus olhos vidrados na transparência, fizeram jus à situação. Seu olhar de terra fresca e recém-molhada seguiram as gotas lá fora e lhe deram semelhantes na borda de seus olhos. Sua boca se tornou uma fina linha…

Ela fez um esforço enorme para não se recordar, mas como uma velha conhecida de um antigo imóvel, a pobre menina sabia de cada móvel que compunha o lugar.

Sua cúpula encantada estava em pedaços e seus pés descalços estavam forrados pelo vidro, ela não se mexia muito para não acabar se ferindo.

Com a pele tão pálida quanto da lua de verão, ela franziu o cenho e uniu bem as sobrancelhas e suspirando recuperou sua primeira lembrança…

Um vestido amarelo de fita de cetim e meias do mesmo tom com bolinhas e chafariz. Uma corrida desenfreada para alcançar seu voo máximo e seus cabelos libertos em pleno fogo e chumaço, as labaredas iam alto e faziam o seu curso, as estrelas o seu rosto seguiam o seu rumo.

Um quintal apenas dela e protegido por magia. A crença que carregava era de que nenhum mal a atingiria. Ela tinha consciência de que os dragões ficariam lá fora e que existia o bem e o mal, mas se estivesse protegida pelo seu portal, tudo ficaria bem.

Subia montanhas que demoravam semanas em missões. Tinham muitos Castelos, que além de muito bem equilibrados lhe davam frutos doces e ainda decorações. O mais divertido para a menina era encontrar suas amigas fadas, que só lhe apareciam quando um dente de leão assoprava.

Não poderia esquecer os seus amigos fantasmas malcriados, que sua mãe sempre estendia para não ficarem mal-acostumados.  

Sempre lhe perguntavam aonde ia com tanta pressa. Como poderia não correr? Um alfa em sua posição sempre tem seu dever! Os seus lobos sempre grandes e fortes a seguindo fielmente… Era sua fonte de amor e também quem lhe daria alimento.  

O navio sempre estava no porto a sua espera, mesmo com o mar turbulento ele não negava nada a ela.

Muito esperta a menina tinha grandes profissões, não era maestro de cordas, mas sim de corações. O braço sempre abria e comandava o vento, acreditava que as árvores seguiam seu molejo.

Os anos foram passando, e com tantas velas que assoprou em seu caminho, um dia ela notou uma rachadura no vidro. Aquele vidro que protegia seu quintal do restante. Chorou pendurada, quando a primeira rajada lá fora entrou, e com uma de suas mechas dançou.

Um dia na ponta dos pés viu além da cúpula e se surpreendeu quando não sentiu culpa. Fez pergunta descabida a si mesma, e foi notando rachaduras a cada dia mais densas.

Até que um dia notou que seu quintal estava diferente, o encanto já não era presente. As montanhas se tornaram barrancos pequenos e mal estruturados no quintal. Os castelos ruíram e deixaram apenas árvores no local. Sua mãe pendurava apenas lençóis brancos… O fogo em seus cabelos foi se apagando firmemente, e se tornaram apenas um tom de bronze raro entre os mais conscientes.

Sua alcateia se desfez e sobraram apenas vira-latas, que ela ganhou por não ter nenhuma raça. A ruiva não entendia o que estava acontecendo e enquanto corria, percebeu que estava crescendo.  Não havia muita explicação, o porto deve ter sido engolido, pois havia apenas uma rede em seu portão ruído.

Agora ela já estava da altura de sua janela, a garota abriu os braços, mas a maestria não pode atingi-la… Um furacão lhe deu a consciência e ela chorou com toda aquela demência.

Correu e correu até estar dentro de sua casa, e viu lá de dentro sua infância se transformar em migalhas. De mãos empalmadas no vidro ela gritou, mas sua cúpula ai sim se quebrou.

Seu quintal já não lhe cabia e se via em mal estado. Ele lhe foi a melhor fonte, lhe trouxe amor constante, mas já não era o mesmo quintal encantado.

Sua cabeça pendeu para trás e seus dedos fizeram os vidros tilintarem com o movimento.

 

O vento assobiou e uma voz no ar dançou…

“Eu te criei para o mundo”

Firmemente, ela travou o maxilar e rebateu aquela triste voz.

“Você é o meu mundo. É tudo que eu conheço”.

Dessa vez o vento parecia gargalhar, seu zumbido se prolongou e a menina se encolheu.

“Está na hora de conhecê-lo de verdade. Não posso te prender para sempre ao meu lado”.

Seus pés se bateram com firmeza no chão e em postura confiante ela travou os braços no peito.

“Mas e os dragões? Vai me deixar morrer sem meu mundo de ilusões?”.

Dessa vez, ele soprou com força demais para uma brisa lenta. Levantou seus cabelos, quase como uma birra. O vento não gostava de ser contestado.

“Há dragões que serão devastadores, mas há também os que esconderão amores. Isso aqui foi apenas um treinamento, o que é bom vive no alento”.

“Que alento você diz?”

“A cúpula lhe protegeu, mas agora deve ir”.

Quando ela abriu a boca novamente para protestar. A voz a cortou a colocando em seu lugar.

“Olhe em sua mão, menina. Eu não decido a hora que deve partir, seu coração sabe quando deseja ir”.

E ela olhou e viu que ali morria sua inocência. Quem havia quebrado a cúpula era sua consciência. A marreta que enlaçava nos dedos finos, era a maior culpada ou talvez um amigo.

E antes de sair, ela olhou para trás e deixou a cúpula ali em paz. A pequena deixou a marreta cair e enlaçou os dedos em minha mão ali. Caminhamos lado a lado, sem dizer uma palavra, ainda não éramos amigas chegadas. Eu sabia que ela atenderia por infância e eu já crescida escolheria distância.

Meu quintal era pequeno e já não me cabia, o mundo lá fora é grande com muita magia. E de olhos fechados eu sussurrei fielmente, que o quintal encantado é apenas uma parta da gente.

Thalita Cini

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