Mente cansada

Mente cansada

Eu não vejo a hora
Do dia acabar
Para que eu possa colocar
A cabeça no travesseiro

E desligar
A minha mente
Das ideias e pensamentos
De mais um dia cheio

E descansar também
Esse meu corpo cansado
Do trabalho pesado
E do velho trem

Onde me sinto escravo
Um engolidor de sapos
Peixe enlatado
Nesse transporte defasado

De espaço limitado
E sem respeito por ninguém
Onde os pobres coitados
Pagam caro

E ainda agradecem
Pelo que se tem
E por mais que peçam
As melhorias nunca vem

Eu me vejo
Cada vez mais escravo
Do patrão, do mercado
E da rotina

Onde o salário não motiva
E nem se quer paga a conta
Do pacote básico
De subsistência da vida

Imaginem só a quantidade
De desejos e vontades
Dos planos que faço
E guardo pra depois

Nessa desigualdade feroz
Imposta por um sistema
Que diz que o problema
Somos nós

Cidadãos de bem
Que esperam pelo milagre
Da oportunidade
E da dignidade

Onde os donos do poder
Nunca dizem amém
E fazem suas leis
Para nos prender

Constroem presídios
Ao invés de escolas
E universidades
Para os nossos filhos

E o povo mata
E morre por migalhas
Tentando viver o agora
Ao invés de lutar pelo futuro

São tantas as indagações
Revolta e indignação
Que nem sei como aliviar
A alta pressão

Que tenho nesse coração
Que sonha com a revolução
De uma consciência social
Que se sobreponha ao mal

E faça a transformação
Através da educação
E da inclusão
Para quebrar a rotina

E o paradigma
Dessa velha reprodução
De uma servidão
E exploração histórica

Onde a lógica
É manter tudo como é
Em benefício do lucro
Ao 1 % mais rico

Eu não vejo a hora
De colocar a cabeça
No travesseiro e esquecer
De tudo que me faz sofrer

Mas sei que quando
O novo dia amanhecer
Essas mesmas ideias
Virão novamente

Povoar a minha mente
Cansada e descrente
Do ser que se diz “humano”
Nesse mundo desumano

Nesse mundo de violência
Que ceifa a vida dos jovens
Iludidos com a dependência
E a criminalidade

E o que fazer
Se somos pobres e pretos
Moradores dos guetos
A margem da sociedade?

Que serão sempre
Culpados e suspeitos
Subjugados e sem direitos
A expressar a dor do peito

A minha mente está
Tão cansada e segregada
Nesse mar de hipocrisia
Que não leva a nada

Mente aprisionada
Cheia de problemas
Vazia de ideais
Ideias e resistência de paz

Mente cansada
Julio Cantuaria

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